Manhã Submersa.




Manhã Submersa, Ruela, 2008.


(...) Eu vivia, de resto, agora, e cada vez mais, da minha imaginação. E foi por isso a partir de então que eu descobri a violência da realidade. Nada era como eu tinha fantasiado e não sabia porquê. Parecia-me que havia sempre outras coisas à minha volta que eu não supunha, e que essas coisas tinham sempre mais força do que eu julgava. Assim, a minha pessoa e tudo aquilo que eu escolhera para mim não tinham sobre o mais a importância que eu lhes dera. Chegado à realidade, muita coisa erguia a voz por sobre mim e me esquecia.

(...) Quando algum de nós se afastava para dentro de si próprio, logo a vigilância alarmada dos prefeitos o trazia de rastos cá para fora. Os superiores sabiam que, à pressão exterior, cada um de nós podia refugiar-se no mais fundo de si. Como sabiam também que a descoberta de nós próprios era a descoberta maravilhosa de uma força inesperada. Nenhuns sonhos se negavam ao apelo da nossa sorte, aí na nossa íntima liberdade. Por isso nos expulsavam de lá. Mas, uma vez postos na rua, havia ainda o receio de que as nossas liberdades comunicassem de uns para os outros e ficassem por isso ainda mais fortes. E assim nos obrigavam a integrar-nos numa solidariedade geométrica, ruidosa e exterior como de ladrilhos.


Extractos de Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, 1953


Via Blog Palcos Cruzados

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Aí a chegar.







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BALADA DE HONG-KONG.


MOSTRA DE CINEMA DE
Hong-Kong

CINEMA LONDRES
28 OUTUBRO - 1 NOVEMBRO



A Zero em Comportamento apresenta, de 28 de Outubro a 1 de Novembro de 2009 no Cinema Londres, uma mostra dedicada ao cinema de Hong Kong.
A mostra tem como objectivo dar a conhecer uma selecção da melhor e mais recente cinematografia de Hong Kong. Serão exibidos sete filmes, que demonstram a diversidade e a vitalidade da produção cinematográfica contemporânea de Hong Kong.
Os filmes incluídos no programa são "Sparrow" de Johnnie To (realizador homenageado no IndieLisboa’08), o melodrama True Women for Sale de Herman Yau, o filme de acção "Tactical Unit-Comrades in Arms" de Law Wing-Cheung (sequela de "PTU" de Johnie To) e o drama adolescente "High Noon" de Heiward Mak. O programa inclui também uma homenagem ao aclamado cineasta Tsui Hark, com a exibição da sua célebre trilogia "Once Upon a Time in China".
Nos anos 80 e 90, Tsui Hark trabalhou não só como realizador mas também como argumentista, produtor e caça-talentos, tendo tornado o seu nome numa referência incontornável dos filmes de género de Hong Kong ao contribuir de forma decisiva para a renovação do cinema popular de Hong Kong através de uma série de grandes êxitos de bilheteira. A apresentação dos três filmes de Once Upon a Time in Chinaconstitui uma rara oportunidade de os espectadores portugueses poderem ver em grande ecrã toda a espectacularidade visual desta saga sobre as aventuras do lendário herói chinês Wong-Fei-hung.
A Mostra de Cinema de Hong Kong é um projecto desenvolvido em parceria com o Hong Kong Economic and Trade Office de Bruxelas.

continuar a ler (no blog c7nema)


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Be Excited, Be Be Excited!


NOVEMBRO DEDICADO A
Sylvester Stallone
No canal Hollywood.



Assim que tiver informações específicas relativas às exibições, hei-de colocá-las aqui.
Acabei agora mesmo de ver pela primeira vez ver o teaser desde ciclo, que está maravilhoso, por sinal. Curiosamente, ainda hoje lia este artigo da Kimberly Lindbergs no seu CineBeats, que muita espanta por assumir publicamente a euforia incondicional por Klaus Kinski, um actor que fez de traços que vincavam o susto, o rosto de um legado magnífico. (Ainda que sem a capacidade e possibilidade de stalking dedicadas de Lindbergs a Kinski), é assim que eu me sinto em relação ao charmoso boca-torta..

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PRECIOSIDADE!


Labyrinth
JAN LENICA (1963)
ver no Youtube




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(AT DAWN WE'LL BE IN TOKYO.)

Celebrating Chris Marker.


Sans Soleil
CHRIS MARKER (1983)



Les Astronautes
CHRIS MARKER + WALERIAN BOROWCZYK (1959)
(parte 1)

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Fernando Vicente








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Anne Owens

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Planos para sexta à noite?


UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA
FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS


Festa de Halloween
Sexta Feira 30 / 00h00-06h00



COM:
JACQUELINE BETTENCOURT ( DANÇA DO VENTRE) DONNA DEL FUOCO ( FIRE SPITTING) TIAGO D. (DJ SET) BELARD + TEIKOO (DJ SET) NUNIX ( FACEPAITING) GIRL ON GIRL (DJ SET)

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Hoje sinto-me assim :




(autor desconhecido)

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Cinema em noites de segunda-feira.


CICLO DE CINEMA
Neo-Realista Italiano
na Casa da Achada




26 Outubro
Ladrões de Bicicletas (Vittorio de Sica, 1948)

2 Novembro
Roma Cidade Aberta (Rossellini, 1945)

9 Novembro
Paisá (Rossellini, 1946)

16 Novembro
Rocco e os seus irmãos (Visconti, 1960)

23 Novembro
Milagre em Milão (Vittorio de Sica, 1951)

30 Novembro
A Estrada (Fellini, 1954)

7 Dezembro
Mamma Roma (Pasolini, 1962)

14 Dezembro
O Grito (Antoniono, 1957)

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Rui Aguiar























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Liquidkid1

(no dA)











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Peter Granser













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Marc Yankus










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Hoje sinto-me assim :



(Oficialmente, o meu primeiro dia de retiro invernal.)

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Festival Temps d'Images 09

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Ciclo de Cinema Halloween em Alvalade :

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Sugestão:

Open day III
LX FACTORY
23 outubro
10 a.m. - 5 a.m.


download programação

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Para salvar a linha do Tua.



Cine H2O
1º Festival Ibérico de Imagens sobre os Temas da Água
13, 14 e 15 de Novembro / Mirandela

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Hoje sinto-me assim:



( Ligeiramente ansiosa, às 21h30 há Agnès Varda em carne na Cinemateca Portuguesa.)

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Sàbado à noite.

PLANOS PARA HOJE?
Sessão dupla com João Canijo na RTP2.



22:46 - Mal Nascida
00:51 - Noite Escura

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THE GRADUATE :

ADEUS, SONHO AMERICANO.






The Graduate
MIKE NICHOLS (1967)







SOUNDS OF SILENCE
SIMON AND GARFUNKEL

Hello darkness, my old friend,
Ive come to talk with you again,
Because a vision softly creeping,
Left its seeds while I was sleeping,
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence.

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone,
neath the halo of a street lamp,
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of
A neon light
That split the night
And touched the sound of silence.

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more.
People talking without speaking,
People hearing without listening,
People writing songs that voices never share
And no one deared
Disturb the sound of silence.

Fools said i,you do not know
Silence like a cancer grows.
Hear my words that I might teach you,
Take my arms that I might reach you.
But my words like silent raindrops fell,
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon God they made.
And the sign flashed out its warning,
In the words that it was forming.
And the signs said, the words of the prophets
Are written on the subway walls
And tenement halls.
And whisperd in the sounds of silence.



"Eu tenho uma palavra para ti : Plástico!" O conselho que indica a Ben (Dustin Hoffman) uma orientação é eco de um industrial que mal o conhece, e que faz coro a indicações e perguntas que entopem a atmosfera daquela festa, que lhe é dedicada. Celebra-se a recém licenciatura de Ben, e se a idade do exterior das vozes lhe aponta a este ponto um começo de vida, um abismo de dúvida envolve este jovem de 21 anos, que a um degrau do recomeço anunciado, não sabe que direcção seguir.
E se "The Graduate" se inicia e constrói sob a música de Simon e Garfunkel, a cadência de "The Sounds of Silence" espelha a realidade comum atrás dos rostos dos vários personagens focados : confusão, oreientação em falta, o protagonismo de um estado limbático da própria vida e da travessia das etapas e da idade. Ben, inaugura sem festejos uma entrada na vida adulta. Mrs. Robinson (Anne Bancroft) atravessa a meia idade, numa aparência atraente e recatada, envolta num mistério que jamais se desfaz perante a ingenuidade de Ben. Ocasionalmente, este acaba a envolve-se sexualmente com esta atraente mulher casada, amiga de longa data dos seus pais, que se retém ao detalhar a sua própria vida e personalidade. Mas este engolir de si própria pesa-lhe, e o seu desgosto é visível pelas adversidades que se impuseram às próprias circunstâncias e a conduziram sem escolha para o casamento, para a maternidade, para uma interrupção de estudos, para o alcoolismo, para a letargia existencial e, dali, para um pequeno affair romântico com este jovem da idade da sua filha. A câmara balança nos interiores da primeira metade do filme sempre segundo o sentimento de claustrofobia de Ben, deste a chegada à festa a este caso secreto, desenrolado no desconhecimento de todos, inquirido pela curiosidade insatisfeita dos pais e atentado por uma culpa inicial de Benjamin, de moral inflectida. Mas esta sua primeira experiência íntima é retratada com uma leveza cómica contagiante, e há desejo sincero no espectador deste alívio esporádico concedido ao sofrimento da bela Mrs.Robinson desvitalizada, e de um sentido corpóreo que ocupa as ânsias de Ben, e da sua presente falta de agenda.






Há que recordar a inserção espacial a que este filme é contemporâneo e dá justa voz. Passa-se nos anos 60, década de confronto geracional por excelência, e de juventude liberta à desconsideração pelos valores precedentes, e é pelo puro desejo físico, mútuo, que este casal se forma, sem considerações sociais ou etárias seriamente à prova numa impulsão maior do que a decisão. Esta mulher simboliza o confronto e falência da sua própria geração, desta classe burguesa capitalista, que encabeçou a bandeira do "American Dream" , se torce a conveniências e publicita à superfície a estrutura social reluzente da composição familiar adequada. À verdade, atenua-se pelo álcool, seda-se pelos comprimidos, embala-se pela televisão e camufla as angústias do subúrbio com os novos tons do plástico colorido da Tupperware. De plástico se emproavam, compostas, as pessoas, de vidas regradas e sedimentadas numa segurança material que não equivale a satisfação ou a felicidade.
A jovem geração compromete-se então à mudança, à fidelidade e liberdade para consigo mesma. Como admite Ben, a ser "diferente". Vemos atenuar a sua clausura pela primeira vez, num encontro esporádico constituído pela imposição dos pais de levar Elaine, filha de Mrs.Robinson, a sair. Por comparações óbvias numa rivalidade latente com a beleza da filha, assim como pelo incómodo de saber o próprio amante eventual pretendente da filha, Mrs.Robrinson proíbe, por varias vezes, que os jovens se encontrem, mas a insistência dos pais de Ben obriga-o a quebrar a promessa feita à amante.
Nessa noite, uma empatia sincera gera-se entre um Ben já cansado de um caso físico sem substãncia emocional, e a jovem estudante Elaine (Katharine Ross), que inexplicavelmente parece simpatizar com o rapaz. À fúria de Mrs. Robinson, segue-se a necessidade de Ben de contar toda a verdade à jovem acerca do caso extra-conjugal com a sua mãe. A resposta óbvia é de repulsa imediata, e de desprezo por aquele rapaz e por aquele princípio de relacionamento entre ambos.







Pela estrada fora. Ao ritmo de Easy Rider e com um carro decalcado de Blow Up. Benjamin ganhara o propósito de perseguir o seu sentimento por Elaine e parte, à liberdade do seu descapotável vermelho, numa viagem ao encontro da rapariga. Planos demorados atravessam a paisagem com Benjamin, vivendo a libertação e o fulgor determinado, novidades no ímpeto deste jovem que se vira rosto da própria letargia . Viaja até Berkeley, onde encontra a jovem Elaine na faculdade, comprometida com um noivado de longa data. Magoada pelo cair das máscaras, Mrs. Robinson contara a verdade ao marido, que pretende o divórcio, e envolvera a credulidade de Elaine numa versão adulterada da história que ocorrera entre si e Ben. Mas é na perserverança, insistência e autentica perseguição deste que Elaine crê, considerando a sinceridade do sentimento amoroso que este lhe dedica e devolvendo-lhe também o seu amor, em resposta.
No entanto, por pressão parental sufocante, decide casar-se com o noivo, de encontro às expectativas cómodas dos pais, em desavença entre si. E, terminada a cerimónia, surge um Ben esbaforido, gritado, sufocado pela dor de ver a sua amada noutro enlace. E ouve por retorno o grito de Elaine que, amando-o, responde àquele resgate. Mal ouve as palavras da mãe que pretendem segurá-la : "Agora é tarde demais". Não era tarde demais nem para a própria Mrs. Robinson, que desejamos que tivesse pensado aquelas palavras para consigo, mais cedo, mas que agora tire o proveito justo da sua nova condição para dignificar a rebeldia com que simpatizamos, aquela índole artística desregrada e mal-disfarçada na submissão violada da mulher casada, que falha àquela época, para viver em liberdade o seu percurso. Despida de idealismos acerca da própria vida e nas projecções múltiplas acerca da vida de Elaine. Que o seu martírio começara, afinal, à sua juventude, simplesmente porque não se viviam ainda as consequências positivas que a libertação feminina e a revolução sexual dos anos 60 trouxeram às mulheres: os métodos contraceptivos. Pela necessidade absoluta de uma gravidez indesejada, envolvera-se, sem escolha, num caso conjugal forçado que a arrastara até ali.





Mas a fuga impulsiva do jovem casal apaixonado e o triunfo do sentimento em detrimento do planeamento estrutural não é um "final feliz". Uma consciência realista rapidamente ocorre, em simultâneo, a Ben e Elaine, recostados no banco do fundo do autocarro, de rostos assombrados pela mesma dúvida de sempre. O que farão, para onde irão. Que formas terá o seu amor de sobreviver agora.
Um último plano explcita o abalo consentido ao íntrincado jogo cómico que preside, em índole e objectivo, a este filme. Efectivamente, causas complexas e temáticas de relevo vêm-se abordadas e consideradas ao longo de "The Graduate", pressionadas por um peso sufocante do mundo social sobre o indivíduo, mas logo imediatamente libertados pelo mundo natural, em paisagens infinitas e absorventes. Tal como a música, de utilização brilhante, que ocorre à imagem tantas vezes altíssima e, esmagadora, escolhe ampliar a realidade retratada com as próprias letras, ou esmagar por contradição e à distância, os móbiles de uma vontade exterior que estão em retrato. Alterna-se habilmente com o silêncio que, como nesta última sequência, responde à narrativa difundindo a angústia, a apatia, a introspecção, o desconhecido.
Tal como neste casal, o futuro da vontade de toda uma geração, vista do interior dela própria, é uma incógnita.


Com justiça, Mike Nichols recebe um óscar de realização por esta sua segunda longa-metragem. Julgo-o um drama intemporal, espelho de uma angústia própria à juventude que, à beira da idade adulta, nutre ainda um desejo sincero de atingir a diferença, mas não saberá em concreto que passos imediatos dar ao mesmo tempo que é depósito da expectativa dos que o rodeiam para tomar parte numa inserção estrutural proveitosa, montra de ambição e previsão de sucesso. "The Graduate" foi um sucesso no seu lançamento, por vários motivos que se extendem desde a ousadia da abordagem temática (sexualmente descontraída) até à emblemática banda-sonora de Simon and Garfunkel, tão em voga neste momento. Ao mesmo tempo, um deprezo pelos valores religiosos está presente, e gerou polémica; Encorpora-se da figura adúltera de Mrs. Robinson, do desrespeito de Elaine pelo laço matrimonial recentemente fundado e conhece uma materialização explícita na sequência em que Ben enclausura as testemunhas do casamento na Igreja onde este se realiza, usando como ferramenta um crucifixo. Por outro lado, as formas freudianas que legendam um detonar massivo dos comportamentos, adquirem na narrativa uma utilização inteligente através da parecença física inegável entre Mrs. Robinson e a mãe de Ben, legendando com uma certa comicidade esta tendência de aproximação básica que conduz Ben, filho único, à sua primeira amante.
Ao nível estético, "The Graduate" é um filme sinceramente belo, com uma cinematografia memorável e uma recorrência abundante ao grande-plano, que rapidamente nos aproxima das personagens. A própria montagem flui num ritmo maravilhoso, colaboração do montador Sam O'Steen (que participara em filmes como Cool Hand Luke e Chinatown) que lhe confere uma sequencialidade inovadora, cruzada com um ritmo interno contemplativo em certas etapas, de diálogo escasso mas acertado, verdadeiramente revelador e oportuno.

Vi-lhe algumas falhas, é certo, nomeadamente numa segunda parte mais flagrante em omissões narrativas, onde houve falta em revelar dados adjacentes que me pareciam estruturais, mas que pendem, tenho a certeza, da inserção actual da minha visão, em si formatada por um estruturalismo emocional que dificilmente crê que Elaine e Ben se envolvessem de um sentimento tão intenso e mútuo apenas após um único encontro e que este encontro isolado tivesse fogosidade suficiente para que uma relação de noivado tão planeada se quebrasse de imediato. Tenho pena da minha falta de fé neste poder construtor do sentimento, mas creio que será comum a toda a minha geração. (E se agora, abro uns parânteses para me debruçar, neste sector, sobre a minha geração, digo que se a acusam de fugacidade sentimental, de multiplicidade inócua e de leviandade emocional, estão redondamente enganados. Reparem como nos sentimos incomodados ao olhar na Hollywood clássica esses enlaces de rapidez e facilidade, de "final feliz", em que o beijo tem praticamente a validade comprometida de um pré-matrimónio. Reparem como nos horrorizam os relatos de enlaces de conveniência, de casamentos prometidos por carta, de namoros à janela, de paixões desencadeadas por um anúncio numa revista ou por uma vizinhança conveniente, nas vozes das histórias dos nossos avós. Provavelmente, estaremos formatados à mercê dos media num molde de amor ideal, profundamente exigente e inatingível, pleno de um romantismo pré-concebido. Tenho a certeza disso. Mas esta desvalorização tem por legenda uma busca positivamente menos comodista e as consequências da comunicação mais facilitada e da persistente recolha de experi~encias validadas por "teste", podem gerar um acréscimo no conhecimento acerca do outro, acerca dos outros. Com todas as potencialidades - não excluíndo a consciência de algumas desvantagens, menores perante as suas contribuições positivas - que na rapidez deste sistema pode existir. )

Acerca deste filme mítico que só agora consegui ver, guardo um pasmo sincero, maravilhado por certos momentos verdadeiramente perfeitos, persistentes na recordação do espectador e, com certeza, especialmente vivos nos que foram presentes ao contexto que o viu surgir. Sintonizada em idade com Benjamin Bradfford, viajo à também eu à superfície destas pequenas questões que vão exigindo certos graus ao envolvimento, em que o retrocesso é sempre o caminho mais difícil. Seja ao nível da resposta utilitária, perante a evocação social das conveniências materialistas ou da expectativa geral, seja ao nível do acréscimo nas palavras, nos estatutos relacionais e no grau de composição generalizado transposto numa direcção de alinhamento estático nas várias esferas em que o indíduo em sociedade se considera.
Este filme compreende o que dizia há uns tempos o professor Bragança de Miranda lá pela faculdade, que enquanto jovens aprendemos só para, mais tarde, aprendermos a desaprender.

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Sessão dupla com


João Mário Grilo.



(1)

Os olhos da Ásia
1996




As épocas, as histórias entrecruzam-se, com a certeza de que um tempo e um lugar presentes não poderão escapar jamais à persistência do passado. Rodeando o vulto de cada espécime da humanidade, está, irreversivel, toda a sua história, detalhada nos pormenores que até ali a trouxeram, do passado próprio em sustento da memória, como de uma sombra invisível que recorda subtilmente no mais ínfimo objecto um percurso inventivo que se apaga com a utilidade que se lhe concede.
Jane Powell (Geraldine Chaplin), protagoniza uma viagem introspectiva pelo próprio passado, resgatando ao Japão as reminescências de um tempo em que lá vivera, enquanto criança, e o reconhecera trágico e desesperado pela salvação. Era o pós-catástrofe de Nagasaki. Ruínas de um tempo que tombou uma cidade, para lhe reclamar um renascimento.

- I'm returning to Nagasaki. I'm looking for my childhood.

A estadia de Jane tem um propósito prático. A oportunidade profissional quis que se importasse uma determinada peça de ópera em japonês, canto de uma episódio histórico verídico, ocorrido naquela região, relatado para ser vendido à Europa. Não virá a ser comprada pela fraqueza pueril da sua organização estrutural, mas Jane terá a oportunidade de se envolver na pesquisa que a precede.
Um grupo de adolescentes japoneses, encenam os nomes de Márcio, Miguel, Martinho e Julião, baptismos portugueses postumos aos justapostos apelidos japoneses. Estes foram os "príncipes de Nagasaki" que, outrora, viajaram pela Europa. Nesta viagem, os "lost boys" encontraram a verdade espiritual em território europeu cristão, e regressaram à cidade-natal em batina de jesuíta.
Os "shogun" japoneses lançaram-se no massacre que eliminaria os cristãos de Nagasaki, em rápida disseminação. Mas a irradicação nunca foi plena e esta movimentação fiel prolongaria as suas marcas até ao presente. Nesse tempo presente é o palco da deambulação de resgate histórico da protagonista, que constrói a sua própria memória trágica em simultâneo com a descoberta desta tragédia antecedente que manchou de sangue o solo de Nagasaki, mas que em todo o lado deixou os seus sinais, como a Nagasaki ferida à mercê dos bombardeamentos.

- Nós somos o sinal.

Os mensageiros, contrários à lei do shogun, são encarcerados, sujeitos à acusação de que contrariam as crenças e nomes familiares e designados para a personificação do exemplo, de incarnação do martírio, do heroísmo ecoado nas mensagens messiânicas.
Na precariedade da clausura, adorna-se um objecto com esperança de um reforço na crença: um cruxifico armado em pau raquítico, perante o qual se vê erguer uma sombra trémula, em lugar de um par de mãos entrelaçadas para rezar. Os restantes rejeitam a obrigatoriedade física do símbolo cristão, igualando a fé à presença interior da cruz .
Enquanto isso, na incredulidade jocosa, despeitada e enraivecida dos funcionários do regime de "shogun", coexiste uma curiosa vontade de ver esta nova crença, sustentada por figuras, símbolos e preceitos heróicos e ideais de beleza e apuração purificadora :

- E se Maria viesse, achas que conseguirias vê-la?
- E porque não? Acaso têm os cristãos outros olhos?

Nagasaki, enraizada numa cultura pagã de elegia natural, que diviniza os elementos e os dignifica como entidades da sua adoração, não entende a cegueira autónoma patente às profecias desta crença, a obscuridade divina dedicada à abstracção crente, e o silêncio absoluto da aparição adiada.

- O Deus que veio ao mundo para se silenciar.

Jane fantasia o tempo. Enverga um kimono e entrança o cabelo, e na subtil aparência de guerreiro japonês, entrega-se aos costumes japoneses. Revive um passado histórico, uma herança cultural que não conhecia presente no seu subconsciente, mas acertada naquela fusão, física e mental, como se uma escritura misteriosa a que se dará maior ou menor importância, como um baptismo concedido ao nascimento. A herança cultural e afectiva, como o baptismo religioso, são substância que um rebento de ser não escolhe. Mas à idade do entendimento, poderá questionar, rever-se na sua ausência ou presença e revalidar os estatutos em que a sua própria escolha não foi presente.

- Escuta Nakura, eu não perdi a fé. Eu nasci sem ela.

- É baptizado?
- Não. Ele não venera Cristo nem Buda.


O tormento insere-se neste amar a Deus e os condenados à morte aceitam o destino que o infortúnio infiel lhes concede. Um par de mãos de fogo aquece-se da luz laranja, deixando um calor elementar que nunca questionou entrar em si.

- Não sabemos irmãos, o que nos espera, nem por quanto tempo nos espera. O tempo, como o mundo, tem dois hemisférios. Um superior e visível que é o passado, um inferior e invisível que é o futuro. Entre esses dois hemisférios ficam os horizontes do tempo que são estes instantes do presente. Só a Deus os futuros são presentes. Esperamos que confiadamente.

Segue-se lhe a tortura. Uma colina esmagada perante o azul forte de um céu aberto. 18 de Outubro de 1633. A atmosfera é atravessada pela organização de umas vigas de madeira, alinhadas em preparação para as três mortes. Os resistentes à impugnação da própria crença serão pendurados de pés e a cabeça invertida ver-se-á submergida num fosso no solo. Até à morte. Estes serão os mártires de Nagasaki, tanto quanto todos os que deram a vida pela injustiça contra-natural daquela bomba terrível.

- Eram palavras, Julião. Mas seriam as tuas palavras as palavras do senhor que adoravas? em nome de quem quiseste morrer? Acaso eras tu o vento que anunciava a chegada do Senhor? Lembra-te. Acho que o Senhor vai passar e em nome do Senhor correrá um vento, impetuoso e forte e o Senhor não estará no vento? Acaso eras tu esse vento, Julião? Se não eras, que é feito desse vento ou do terramoto, ou do fogo, de tudo o que nos foi prometido antes do Senhor? Quantos anos a fio esperei por esses sinais? Quantos vi morrerem nessa espera? Eram palavras, Julião.



São sempre palavras, declamadas numa terra, seja qual for, que é sempre palco à disputa. A mesma terra engole os corpos humanos do massacre, engole a morte e a regeneração, é cenário estático e imutável da barbárie humana. A terra é matéria que alicerça o progresso e se degrada pela destruição. A terra não perdoa se destruição a indigna o Homem, e culpa valores abstractos como imperativos. Tudo o que se ordena pela vã glória de mandar, desejo em que a pequenez de um homem aspira, com todo o seu desrespeito, à divindade.
O último plano de "Os olhos da Ásia" é um plano aberto de um mar, prolongado até se perder de vista. Elogio de Grilo aos mares do fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto, seu favorito, que reforça o convite de abrir os olhos para questionar toda a paisagem física que, admiravelmente, sempre renasce à claridade da luz, respirando sempre numa magia muda imediatamente acessível à admiração, sem a obscuridade teológica de sacralização cega.



(2)

Longe da Vista
1998



- ... é a única coisa que há a fazer aqui dentro, percebeste? Não ver, não ouvir, não falar. (...) Isto aqui é outro mundo. Fica longe da vista...
- E longe do coração. Também me ensinaram essa.


Há anos a cumprir uma pena que não assume merecer, o velho Eugénio que sonha ainda com a saída da prisão, monta um pequeno esquema financeiro e acha nesta pequena fraude, a justiça para a sua condição encarcerada. Através de um anúncio num jornal, colocado por um emigrante solteiro que procurava uma mulher para companheira, inventa ser a Maria da Luz e, porque não sabe escrever, dita a outros o conteúdo das suas cartas para o americano.
Este é o elemento fictício do seu aprisionamento, a fuga dos seus dias pela via dedicada de projecção abstracta que prolonga durante anos. Maria da Luz adquire uma história, um percurso, uma imagem, uma família e vive nas palavras daquele homem e na sua intimidade com o outro homem que não conhece.
Quando deixa de ter quem escreva por si, aprende inclusivamente a escrever para manter esta farsa, que o destinário nunca desconfia ser entretenimento de um velho homem aprisionado e descrente na vida.
Mas por um momento, um desejo : um corpo certo. Um corpo feminino, certo e condizente, protagonista da projecção daquele homem e pronto para lhe dar a fuga que o esforço merece.
Julgo que "Longe da vista" é, efectivamente, um pequeno conto sobre vidas fictícias, sobre a capacidade das pessoas em conceder importância efectiva às palavras, absorvendo-as por histórias e por sentimentos. Por compassos que ritmam o passar dos anos e se fecham em contratos por promessas vagas, de espíritos sem corpo.
Sublinhei, no decorrer deste filme, três cenas de uma grande beleza e relevância : O momento em que Eugénio é submetido a um exame e navega num plano num estilo rotativo, de reminescência espacial cujo emblema futurista, tecnológico, é quase antagónico à decadência da sua pele enrugada e à pelagem envelhecida ; Há uma força impressionante na crueza com que mostra a morte, e o seu rosto cadavérico e inanimado, pousado e a ser barbeado. E a cena em que Eugénio se encontra sozinho na cela com seu jovem companheiro ( Filipe Cochofel ), e se estabelece uma proximidade entre ambos que é reveladora de todo um laço fraterno que cresce entre o relacionamento de ambos, quase como se que Eugénio ganhasse naquela figura um filho. E é na sequência desta projecção espectral paternalista em relação ao companheiro de cela, que a sua personalidade feminina imaginada passa a exprimir uma maternidade.

O cruzamento de personagens e histórias é um gosto visível de J.M.Grilo mas penso que encontra neste filme um recurso exagerado. Há pontas soltas que são muitas vezes banais mas dignificadas por atenções descabidas, que podiam facilmente ter ganho com um apurar narrativo concentrado, e com uma redução do número de personagens.
Há demasiado diálogo e muito pouca eficácia na palavra. Sou suspeita, admito, pouca paciência tenho para uma frenesins verbais intermináveis, ao jeito de Bogart-Bacall, e dou uma importância tremenda à vivência expressiva dos rostos, da revelação pelo gesto e do prolongamento das sequências. Também não revi aí este filme, onde sublinhei uma montagem pouco respirada.

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