"These images are meant to play not on our rational senses, but on the infinite universe of ambiguity within us." (Sidney Peterson)




Wonderland.

Publicada por Sabrina D. Marques em 14:06 0 comentários

( is this real life? )


MATRIX, Wachowski Brothers, 1999


A revolução é o comunismo mais a electricidade.  Lenine



Life is not a choice. It is a continually evolving complex adaptive
system with many interacting cognizers, which these days
includes intelligent machines, intelligent programs, intelligent
environments, and intelligent humans. That’s what virtual
creature can teach us.
K. Hayles

(...)E o que nos diz esta hipótese é que, tanto na origem quanto no limite da evolução técnica – os videojogos nem sequer são exemplo exclusivo –, encontramos aquilo que nos é mais íntimo: o corpo. Seria esse, afinal, o verdadeiro «motor» da(s) convergência(s). Convergência de órgãos e respectivas próteses ou extensões, convergência da própria tecnologia, possibilitada pela codificação digital, convergência ainda das diferentes capacidades motoras e mentais presentes nos diversos géneros de videojogos. No limiar de todas estas convergências, uma realidade de substituição que, por ser virtual, arriscamos definir como «mais-do-que-perfeita». Mas não será a própria imperfeição aquilo que nos faz preferir a boa velha realidade real?
Jorge Martins Rosa in Será a imersão inevitável?


em From Caligari to Hitler, Sigfried Kracauer, 1947


Serge Daney: So what belongs to you?
Jacques Rivette: What belongs to anybody? Outside of our own skin, and even then, are we really sure it belongs to us? We may feel it does, but not all the time. 

Jacques Rivette - the watchman (Jacques Rivette - le veilleur, Claire Denis, 1990)











A Ponte.

Publicada por Sabrina D. Marques em 21:48 0 comentários

"Animados pela fé no progresso, pela fé numa nova geração de criadores e de amantes da arte, apelamos ao agrupamento de toda a juventude. Como jovens, transportamos em nós o futuro, queremos conquistar a liberdade de acção e combater as velhas forças entrincheiradas e reaccionárias. Connosco estarão todos os que quiserem exprimir directamente o seu impulso criador." Die Brücke 1905
Putting our faith in a new generation of creators and art lovers, we call upon all youth to unite. And being youth, the bearers of the future, we want to wrest from the comfortably established older generation freedom to live and move. Anyone who directly and honestly reproduces that force which impels him to create belongs to us.

"(...) 
O que não acontece depois (e não acontece hoje), por razões que são diversas, e que têm a ver com a própria sociedade portuguesa, e com a ausência do aparecimento de grupos, é a criação de uma equipe desse género, homogénea, sintonizada com outros grupos políticos (...) e que actue em conjunto em nome de um programa radical em vários pontos. (...) Julgo que não é porque houve um peso castrador que os impediu. Julgo é que depois da revolução, sobretudo depois do fim da revolução, e com um reprotegimento do individualismo, as pessoas mesmo quando confraternizam e convivem, se sentem menos motivadas para uma acção de grupo. A fazer um manifesto, no princípio dos anos 80, dizendo : morreu o cinema novo, o cinema novíssimo vai começar!"
João Bénard da Costa, diálogos com Manuel Mozos, 1996




(...) 11. Nós cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos as marés multicores e polifônicas das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas; as estações esganadas, devoradoras de serpentes que fumam; as oficinas penduradas às nuvens pelos fios contorcidos de suas fumaças; as pontes, semelhantes a ginastas gigantes que cavalgam os rios, faiscantes ao sol com um luzir de facas; os piróscafos aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de largo peito, que pateiam sobre os trilhos, como enormes cavalos de aço enleados de carros; e o voo rasante dos aviões, cuja hélice freme ao vento, como uma bandeira, e parece aplaudir como uma multidão entusiasta.
É da Itália, que nós lançamos pelo mundo este nosso manifesto de violência arrebatadora e incendiária, com o qual fundamos hoje o "Futurismo", porque queremos libertar este país de sua fétida gangrena de professores, de arqueólogos, de cicerones e de antiquários.
Já é tempo de a Itália deixar de ser um mercado de belchiores. Nós queremos libertá-la dos inúmeros museus que a cobrem toda de inúmeros cemitérios.
Museus: cemitérios!... Idênticos, na verdade, pela sinistra promiscuidade de tantos corpos que não se conhecem. Museus: dormitórios públicos em que se descansa para sempre junto a seres odiados ou desconhecidos! Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores, que se vão trucidando ferozmente a golpes de cores e linhas, ao longo das paredes disputadas!
Que se vá lá em peregrinação, uma vez por ano, como se vai ao Cemitério no dia de finados... Passe. Que uma vez por ano se deponha uma homenagem de flores diante da Gioconda, concedo...
Mas não admito que se levem passear, diariamente pelos museus, nossas tristezas, nossa frágil coragem, nossa inquietude doentia, mórbida. Para que se envenenar? Para que apodrecer?
E o que mais se pode ver, num velho quadro, senão a fatigante contorção do artista que se esforçou para infrigir as insuperáveis barreiras opostas ao desejo de exprimir inteiramente seu sonho?... Admirar um quadro antigo equivale a despejar nossa sensibilidade numa urna funerária, no lugar de projetá-la longe, em violentos jatos de criação e de ação.
Vocês querem, pois, desperdiçar todas as suas melhores forças nesta eterna e inútil admiração do passado, da qual vocês só podem sair fatalmente exaustos, diminuídos e pisados?
Em verdade eu lhes declaro que a frequência diária aos museus, às bibliotecas e às academias (cemitérios de esforços vãos, calvários de sonhos crucificados, registro de arremessos truncados!...) é para os artistas tão prejudicial, quanto a tutela prolongada dos pais para certos jovens ébrios de engenho e de vontade ambiciosa. Para os moribundos, para os enfermos, para os prisioneiros, vá lá:- o admirável passado é, quiçá, um bálsamo para seus males, visto que para eles o porvir está trancado... Mas nós não queremos nada com o passado, nós, jovens e fortes futuristas!
E venham, pois, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Ei-los! Ei-los!... Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas!... Desviem o curso dos canais, para inundar os museus!... Oh! a alegria de ver boiar à deriva, laceradas e desbotadas sobre aquelas águas, as velhas telas gloriosas!... Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e destruam sem piedade as cidades veneradas!
in MANIFESTO FUTURISTA, Marinetti 1909